Na reta final de 2017, Palmeiras paga caro pela soberba e a síndrome do novo rico

  • 9 de novembro de 2017
  • Guilherme Andrade
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por Matheus Pichonelli*

Tinha tudo para ser um passeio. Campeão brasileiro após 22 anos. Uma eleição sem grandes transtornos. Cofres cheios. Arena lotada e torcida disposta a abraçar um projeto de voos mais altos – quem sabe, no fim do ano, contra um grande clube europeu.

Mas chega ao final de 2017 sem conquistas e, pior, sem brio nem alma. Independentemente da posição em que terminar na tabela (o foco no G4 pode em breve se tornar o foco no G6 ou no G10), a temporada do Palmeiras já pode ser considerada um fiasco, se não completo, de proporções consideráveis, mais ou menos como a distância entre expectativa e realidade de janeiro a novembro.

Em uma conta rasa, foram quase 20 derrotas durante o ano, com viés de alta. Quase um turno inteiro do Campeonato Brasileiro, no qual acaba de computar seu 11º viés, desta vez contra uma equipe que não vencia como mandante havia três meses. Se algo marcou a equipe neste ano foi a capacidade de garantir sobrevida e ressuscitar adversários em crise. Só o Corinthians foram duas vezes, um empurrão em direção à taça do Campeonato Paulista e o fôlego de confiança que eles precisavam na reta final de um Brasileiro que ganhava cores de dramaticidade.

Alegrias? Poucas. Vitórias heroicas contra o combalido Peñarol. Gol no minuto final contra o Jorge Wilstermann. Uma virada contra o Santos na Vila Belmiro. Duas sapecadas no São Paulo no Allianz Parque, para garantir a tradição.

Só. O gol sofrido contra o Barcelona do Equador, nos segundos finais de uma partida xoxa, se tornaria, aos poucos, a melhor ilustração da temporada: um golpe despretensioso, evitável, que entra lentamente e premia, pelo avesso, a ausência de coragem e pretensão. Foi assim o ano inteiro, quando o time a ser batido se tornou um time facilmente desmontado por rivais sem a mesma musculatura. Derrotas idiotas no Paulista. Uma piaba em Campinas contra a Ponte. Derrotas no turno e no returno do Brasileiro para Corinthians, Santos e Chapecoense. Uma capacidade apenas de ensaiar uma reação que nunca veio.

A alegria adiada e abafada parecia tomar forma à medida que o time repetia a boa sequência do primeiro turno e, às vésperas do confronto com o Cruzeiro, a pedra no sapato durante a temporada, a distância para o Corinthians diminuía. Quando virá nosso momento? Quando vai ser a ultrapassagem?

Faltou combinar com os adversários, enquanto levávamos para o intervalo três gols nos primeiros 45 minutos. Foi assim contra a Ponte, contra o Cruzeiro (confronto válido pela copa do Brasil) , contra o Corinthians no segundo turno e, agora, contra o Vitória.

Os sinais eram muito mais claros do que a mística das conquistas nacionais, sempre em anos seguidos, como 72/73, 93/94. 2017 falhou até nisso.

O Palmeiras que passou quase 30 minutos com um homem a mais em campo sem sequer ameaçar o Vitória era uma equipe que chegou à reta final da temporada com um time inteiro sem qualquer serventia, seja por opção tática, seja por limitação técnica. Fabiano, Antonio Carlos, Luan, Juninho, Felipe Mello, Rafael Veiga, Hyoran, Michel Bastos, Erick, sem contar o sempre escalado, jamais efetivo, Egídio, talvez a maior inspiração para congêneres como Roger Guedes, Deyverson, Bruno Henrique e Mayke, que em campo não têm qualquer perspectiva de alterar o destino de uma partida.

Tudo porque, assaltado pela síndrome do novo rico, o Palmeiras de Alexandre Matos foi ao mercado como quem compra sapatos caros que não precisa e não será usado. Pelo simples intuito de comprar. Viramos o time ostentação, que comemora contratação, chapéu no mercado, e se esquece de jogar bola.

Os reforços antes desprestigiaram um elenco vitorioso na temporada anterior do que somaram. Exemplo maior é Felipe Mello, que jogou pouco, falou e causou muito e hoje é lembrado nos muros pixados como bote de salvação – enquanto o até então discreto Gabriel, antes identificado com a torcida, agora esfrega as mãos para levantar a sua segunda taça.

Antes a salvação era Cuca. Um dia foi Felipão. Alguém pedirá Luxemburgo para resgatar glórias passadas em um presente perdido?

Já sabemos onde este sebastianismo leva.

A soberba do Palmeiras deste ano torrou em paciência o que sobrava em dinheiro. De um time equilibrado e vitorioso no ano passado tornou-se ansioso e abobalhado para trazer e se desfazer de nomes a cada revés.

Hoje é motivo de chacota. Paga um preço caro, literalmente, pelas próprias escolhas. A humildade não era uma delas.

 

Sobre o autor do texto:

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e CartaCapital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e se mudou para Valinhos, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol enquanto molha as plantas, passeia com a cachorra e coloca Rolling Stones no celular para o filho de 4 anos se entreter.

 

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