Complexo de vira-lata

  • 22 de novembro de 2017
  • Rafael Sugiyama
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Recentemente, viajei a trabalho para Lisboa, para participar do WebSummit, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, se não a maior.

Amante de futebol que sou, blogueiro do Papo de Arquibancada e do Torcida que Canta e Vibra, não poderia deixar passar esta oportunidade.

Estando em Lisboa, portanto, na Europa, pedi permissão ao meu chefe corinthiano, para que pudesse esticar um pouco mais a viagem para conhecer a Espanha, Inglaterra e França. Permissão concedida, fui atrás das passagens, hotel, família e conhecidos nestes países.

Além, obviamente, de rever amigos e familiares, participar do evento e conhecer pontos turísticos históricos, tinha outro objetivo nesta viagem: conhecer o temido e poderoso futebol europeu.

Na Espanha, pude conhecer o novo estádio do Atlético de Madrid, o Wanda Metropolitano, e também o Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid. Em Madrid, tive a oportunidade de assistir ao primeiro clássico Atleti x Real na nova casa do Atlético. Uma pena o placar final de 0 a 0.

Na Inglaterra, conheci o Stamford Bridge, casa do Chelsea, e Wembley, onde assisti o péssimo jogo entre Inglaterra e Brasil.

Em Portugal, estive no José Alvalade, do Sporting, e no famoso Estádio da Luz, do Benfica.

Em outra oportunidade, nos EUA, estive no MetLife Stadium, outro colosso, mas desta vez assistindo a futebol americano (New York Giants x New England Patriots).

Minha conclusão, ao conhecer os estádios de alguns dos maiores times europeus, de assistir a jogos na Europa e de conhecer estádios nas Américas, é que nós, brasileiros, vivemos um complexo muito bem descrito pelo saudoso Nelson Rodrigues – o complexo de vira-lata.

Não se lembra o que ele disse? Aqui vai: “Por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”.

Se identifica vivendo este complexo?

Certamente, em algum momento, cada um de nós já pensou, sobre vários assuntos: “Só no Brasil mesmo…”, “Os brasileiros são mal educados, não respeitam a faixa de pedestres”, “Nossa, isso no Brasil seria…”, “Treinador bom é o Rueda, que ganhou uma Libertadores, ou o Bauza, que ganhou 2”, “Nenhum treinador no Brasil presta, só o Jurgen Klopp ou Guardiola, estudiosos”, “Os estádios aqui são uma porcaria”… E por aí vai… Tenho certeza que você, caro leitor, conseguiria incluir aqui nos comentários diversas outras frases em que nós, brasileiros, denegrimos nossa própria imagem.

Por muitos anos, assistindo pela TV ao futebol europeu, via os torcedores sentados nas arquibancadas dos estádios e ficava pensando: “Nossa, ninguém invade. Olha que beleza!! Isso no Brasil seria impossível”. E pronto: pouco tempo depois, temos no Brasil as mais modernas arenas de futebol, comparáveis às grandes arenas do mundo, e não me recordo de termos tido invasões ou grandes incidentes por causa da pequena divisória que separa o torcedor do gramado.

Veja só: até o final do ano passado, o Reinaldo Rueda, atual treinador do Flamengo, era endeusado pela mídia e torcedores. O Corinthians chegou a sondá-lo, outros times o disputaram, e acabou chegando ao Flamengo. Até o momento, faz um trabalho pífio no Flamengo, perdendo o título da Copa do Brasil e fazendo campanha irregular no Brasileirão. Aí você pode dizer: “Mas é claro. Ele acabou de chegar, o idioma pode atrapalhar e os jogadores ainda estão se adaptando”. Você pode considerar este argumento válido para o Rueda, mas desconsidera para o Felipão, que treinou o Chelsea, ou o Luxemburgo, que treinou o maior clube do mundo, o Real Madrid. Ambos tiveram retrospectos ótimos, mas foram minados pelos mimados craques que dirigiam.

Tendo estado no Itaquerão, para assistir a Corinthians x Palmeiras e Brasil x Paraguai, e incontáveis vezes no Allianz Parque, para ver o Verdão, afirmo com toda a certeza: os estádios do Brasil não devem em nada para os estádios europeus.

Não temos os craques que os times europeus tem, é claro. Vários fatores influenciam nisso, sendo o principal o financeiro.

Nossa torcida em nada deve à torcida europeia. Lá, eles são solicitados que assistam ao jogo sentados. Aqui, fazemos a festa que queremos, muito embora de vez em quando um ou outro torcedor grita: “vamos sentar!”, para então ouvir: “quer ver sentado, assista ao jogo de casa!”. Quem nunca? 🙂

Além disso, vivemos dizendo: “ninguém pode falar mal do meu país, só eu, porque afinal sou eu que moro aqui”. Aqui, a frase do grande Henry Ford se aplica bem: “Não encontre defeitos, encontre soluções. Qualquer um sabe queixar-se”. E não é?

O propósito deste post não é o de mudar o mundo, o futebol brasileiro, ou nós, torcedores – mas sim nos fazer refletir que sim, somos bons em várias coisas, que sim, temos algumas coisas a melhorar, e também concluir que nós, brasileiros, “cuspimos na própria imagem”.

Como queremos ser valorizados assim?

Abraços!

Rafael Sugiyama

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