O complexo de Robin Hood do Palmeiras

O fictício e controverso fora-da-lei herói inglês, Robin Hood, é a personificação mais adequada da trajetória do Palmeiras por vários momentos neste ano. Assim como o personagem da floresta de Sherwood, que se simboliza através do jargão “tirar dos ricos para dar aos pobres”, o Palmeiras é capaz de realizar exibições quase que impecáveis contra oponentes fortes em seus próprios domínios, ao passo que, diante de adversários, em tese, mais fracos, beira a indolência e remete à generosidade de Hood, ao deixar escapar pelo caminho pontos computados como certos diante dos menos abastados.

No Brasileirão 2018 há exemplos emblemáticos desta gangorra. Ainda quando sustentava uma invencibilidade de meses na Arena da Baixada, o Atlético-PR foi vítima da consistência que o Alviverde demonstra contra os prognósticos mais difíceis: triunfo de 3×1 e domínio sobre o chamativo trabalho de toque de bola da equipe paranaense. No “Choque-Rei”, no Allianz, o Palmeiras, que vinha de tropeço no mesmo palco, mudou a postura e virou o placar na etapa final, impondo a única derrota dos rivais no campeonato até aqui. Na vitória de 2×0 ante o Grêmio, considerada por muitos, por ora, a partida mais vistosa e bem disputada do torneio em onze rodadas, o time se comportou como um verdadeiro espírito de campeão. Ainda nessa toada, como não lembrar dos 2×0 categóricos em La Bombonera? Os 3×0 em Barranquilla?

Incrivelmente, este mesmo time protagonizou partidas enfadonhas e desperdiçou a chance de encabeçar a classificação do Brasileirão pré-Copa. Empates contra Chapecoense e Ceará, duas equipes que nesta temporada, com o devido respeito, não aspiram nada mais que a permanência na elite, além da derrota de virada para o Sport em casa, são resultados que custam caro em uma competição nivelada e acirrada. Mesmo na Copa do Brasil, a classificação diante do esforçado América-MG veio a duras penas, em gol pra lá de oportunista de Bigode, garantindo o empate e vantagem no placar agregado.

Voltemos alguns meses, no Paulistão, e temos, no Allianz, empate com a Linense e revés para o São Caetano.

Acima dos placares adversos e eventuais erros individuais, está a forma como a equipe encara alguns desses jogos. Após abrir vantagem de dois gols contra o Ceará, visivelmente, o Palmeiras pisou no freio. Cadenciou o ritmo de jogo e entregou a bola ao adversário que, embora pouco abastecido tecnicamente, chegava com perigo nas investidas pelas laterais e cruzamentos frequentes na área. Certo que conteria as descidas dos cearenses e mataria o confronto em qualquer contra-ataque, o Palmeiras abdicou de buscar a ampliação do placar e a dominância da partida. O resultado, todos sabemos.

Se quiser chegar em condições de disputa até o final em busca do decacampeonato nacional é necessário acabar com esta displicência. Embora alguns adversários endureçam a fluência do jogo palmeirense com táticas ferrenhas de marcação, o Palmeiras, se não na técnica, precisa ao menos demonstrar vontade, intensidade e seriedade para vencer esse estilo de confronto. Os pontos têm a mesma validade no início, meio ou fim do campeonato, contra fracos ou fortes. No futebol não se pode ter a benevolência de Robin Hood.

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