O último camisa 10

  • 13 de fevereiro de 2019
  • Matheus Lotti
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Era minha primeira vez no antigo Palestra Itália, final do campeonato paulista de 2008 contra a Ponte Preta. Ele pegou a bola, avançou, passou pelo marcador e, ainda fora da área, chutou no canto do goleiro adversário. Ali, nem Oberdan Cattani ou Gordon Banks; que descansam em paz; pegariam aquela bola. Eu afirmo com brilho nos olhos e nostalgia em minhas palavras, que esse gol de Valdívia é sem dúvidas um dos mais belos que já vi em minha vida. Não só pela construção dele ou sua conclusão, mas por tudo o que ele representa, quer para a história do Palmeiras ou apenas para minha vida e memória.

Eu nasci em 1997, e como sempre ressaltei em alguns textos no blog, sou de uma geração que demorou para ver bons times do Palestra. Aquela equipe de 2008 era uma seleção para mim, e eu que vi pouco da maestria de Alex com a nossa camisa, tinha o chileno como o melhor que vi jogar e grande ídolo.
Ele partiu depois de ser campeão paulista, mas logo voltou, e é nessa segunda vinda que nascem as discordâncias e acabam pondo em cheque um retorno, possivelmente para encerrar a carreira aqui.

 

‘É filho da p***, mas é nosso filho da p***”

Não contando a passagem anterior, entre 2010 e 2015 foram mais de 140 jogos, poucos gols(até mesmo para um meia) e várias lesões. Quem não quer ver Valdivia nem pintado de ouro, vai dizer que ele pouco produziu e muito usufruiu do departamento médico. Na maioria das vezes o atleta não tem culpa de suas constantes lesões, infelizmente há grandes jogadores que sofrem ou sofreram com isso ao decorrer de suas carreira, como o italiano Pipo Inzaghi e o alemão Marco Reus, que inclusive acabou não se sagrando tetracampeão do mundo na Copa de 2014 por conta de suas contusões.

Valdívia era um desses, tinha ciência da situação mas não se preocupava em se cuidar, isso fazia com que suas lesões fossem rotineiras. Na minha opinião, ele tinha tudo, mas tudo mesmo para ser um jogador que brilhasse nos maiores clubes da Europa. Em uma era defasada de meias clássico, ele era(e ainda é) um desses poucos que nos fazem entender o significado de ser o camisa 10 do time. Tudo o que se esperava de um jogador raro como o Valdívia, é que ele estivesse sempre apto para jogar, pois bem sabíamos do que ele era capaz. Mas demorou para que ele se atentasse e começasse a ser pouco mais profissional.

Não tenho duvidas que o Valdivia triunfará no Brasil.” Palavras de Tite, quando era técnico do Palmeiras em 2006.

Ter o Valdívia como o unico ídolo recente do Palmeiras já não é mais a realidade. Depois da segunda queda para a série B, surgiram as figuras de Dudu e Fernando Prass, dois craques que sempre demonstram sua lealdade ao clube. Há de se exaltar um pouco mais o arqueiro, que esteve no clube quando quase ninguém mais queria. Mas, também não o fez Valdívia?
No comando da seleção Peruana desde 2015, Ricardo Gareca chegou ao terceiro lugar na Copa América e levou os peruanos para a Copa do Mundo de 2018. Cobiçado pela seleção Argentina, o técnico teve uma passagem ruim pelo Palmeiras, mas que sempre salientamos que se aquela equipe fosse melhor, teriamos boa lembranças do treinador. Assim foi com Valdívia, que em raras exceções teve bons jogadores ao seu lado. Uma andorinha só não faz verão, diz o ditado.

Valdívia por diversas vezes encarou as dores e aplicou enxerto, tudo para por a camisa que tanto lhe cai bem e ir para o gramado. No jogo de ida da final da Copa do Brasil de 2012, foi dele um dos gols que encaminhou o título para o Palmeiras. Brilhou em vários jogos na segunda divisão em 2013 e se manteve fiel ao time no terror que foi aquele 2014.

Sim, ele mais esteve se recuperando de lesão do que jogando, mas não era interessante como sempre que se ouvia ”o Mago se recuperou e será titular no próximo jogo” a gente já se animava? Todo mundo queria vê-lo em campo. O só de estar no gramado passava uma energia totalmente diferente. Quando a bola vinha em sua direção, a gente colava nossos olhos na TV a espera de qualquer coisa que ele fizesse, pois seja lá o que fosse, seria diferente dos demais, mesmo que fosse o simples. E precisa dizer algo sobre ele nos clássicos? Talvez um dos únicos que se lembram o que é jogar um Derby.

Mais amado e mais odiado, mas o último camisa 10.

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