O meu desgosto com o Palmeiras

Na correria da semana, fica até difícil parar pra tomar um café da manhã decente, daqueles que você não só come, mas se prepara mentalmente para o que esta por vir. Pois bem, dias atrás consegui marcar um café com um dos meus melhores amigos. Santista ele. Sentamos a mesa e logo fizemos nossos pedidos. Sempre falamos sobre muitas coisas, principalmente sobre filmes/séries, politica e claro, futebol. O assunto da vez era a ação maravilhosa que a diretoria do Cruzeiro fez, ao criar um setor popular no estádio, onde os ingressos vão custar apenas R$ 10.

Falávamos com entusiasmo, com as esperanças um pouco mais renovadas. Um pouco. Quando se está no escuro total, uma brecha de luz é capaz de trazer um pouco de alivio. E claro, falando dessa situação do Cruzeiro, isso daria em Palmeiras e seus ingressos com preços abusivos.

Apesar de Santista, meu amigo acompanha bastante o Palmeiras e nutri algum sentimento por ele, tal qual como eu, tendo de um lado a famiglia palmeirense do meu pai e do outro a família santista de minha mãe, nasci porco com ascendente em peixe. Enfim, eu fazia minha oposição aos ingressos caros do Allianz, quando ele me solta a seguinte frase: “É aquela coisa mano, até as coisas que a gente ama nos dão decepções”.

 

Do brasileirão do ano passado até o deste ano que ainda está no começo, o Palmeiras acumula uma invencibilidade de 27 jogos, marca que ultrapassou a da Academia nos anos de 72/73. Tal feito rendeu o reconhecimento dele, aquele que ajudou e muito o Palmeiras atingir esse número expressivo nos anos setenta, o Divino Ademir da Guia.

O futebol apresentado pelo Palmeiras neste ano é de encher os olhos? Não. O Palmeiras poderia jogar muito mais? Com toda certeza. Mas o futebol tem dessas. O alviverde ainda não joga o futebol que deveria, mas joga o futebol que a gente mais precisa. Marcação agressiva, defesa forte, time que joga no seu ritmo, resolve a partida quando acha melhor e pouquíssimo sofre gols. Pode ser feio, mas é o que da resultado e nos mantém no topo.

Não vim falar do jogo proposto por Felipão, do comportamento do Deyverson, das borjadas do Borja ou da preguiça do Lucas Lima, pois tem coisas bem mais graves para serem analisadas.

O meu desgosto com o Palmeiras, é ver o quanto o elitismo tomou conta da instituição.

Sempre envolvi o Palmeiras com meus ideais políticos. É o clube que eu torço e aquilo que eu acredito. Vá em qualquer lugar do mundo e você verá que futebol e politica se misturam SIM. Vou transformar isso aqui em palanque para politico ou partido? De maneira nenhuma, não tenho nenhum de estimação. Mas podem usar coisas ditas aqui para algum manifesto.

Todo mundo sabe que, o Palmeiras foi fundado por imigrantes que eram operários e chão de fábrica aqui no Brasil. Apesar do seu inicio com exclusividade para italianos e descendentes, o clube acabou abraçando a todos, sem distinção alguma, para mostrar que sabe ser brasileiro.

Todo mundo sabe que, o futebol mudou. Quase não se vê o amor a camisa que supera qualquer quantia de dinheiro posta na mesa. Os charmosos e saudosos estádios estão dando lugar as grandes e multifuncionais arenas modernas. As arquibancadas diversas e coloridas dão lugar para um público específico que pode pagar para estar lá. E as festas feitas antes, durante e depois dos jogos, são cada vez mais limitadas. Esse é o tão falado Futebol Moderno, obra do elitismo.

A primeira vez que eu de fato vi o Palmeiras com um olhar crítico que fosse além do futebol apresentado dentro de campo, foi quando começou o cerco nos arredores do Allianz em dias de jogo. O mais triste não foi a proibição, pois é o mínimo que eu infelizmente espero que aconteça em um estado governado por tucanos.

O mais triste foi ver o presidente do clube dar razão.

Há tempos pedíamos à Polícia Militar e ao Ministério Público que tomassem alguma atitude em relação à Rua Palestra Itália. Havia muitos furtos de celulares e carteiras, e muitos cambistas. Tivemos a experiência no jogo contra o Sport e soubemos que o número de roubos e fraudes com ingressos foi reduzido“, Paulo Nobre.

Reforçar a segurança é uma coisa que realmente deve ser feita em dias de jogos, mas não havia outra maneira de proteger a população sem interferir na festa da torcida?

Se a Era Nobre-Galliote é a mais prospera economicamente falando em nossa história, é deles também a era mais nefasta para o torcedor, principalmente o de baixa renda. A arquibancada alviverde sempre foi uma das mais fervorosas e animadas do futebol. Hoje em dia ainda se vê vários jogos em que a torcida empurra o time e orquestra cada comando executado pelos jogadores. Mas não são todos os jogos. São frequentes as vezes que se vê um Allianz frio, que se resume apenas ao famigerado e ridicularizado “Palmeeeiiraaas, fiu fiu”.

A Final do Campeonato Paulista de 2018 é um baita exemplo, eu nunca vi um estádio tão morto como o daquele jogo. A tendência é cada vez mais a gente ver isso, pois quem frequenta o estádio é quem pode pagar e, muita gente que ta podendo pagar, o faz como se fosse assistir uma peça de teatro ou apenas pra gastar um tempo fora de casa.

Falta o povão. O Palmeiras também é o time do povo.

 

O meu desgosto com o Palmeiras, é ver como a soberba pulou o muro. Entre 2005 e 2008 o São Paulo acumulou uma Libertadores, um Mundial e três brasileirões seguidos. Foi então que começou a história de SOBERANO. O tricolor sempre pareceu um time mais elitista e de nariz empinado, e essa história de se autoproclamar soberano só reforçava mais o estereótipo.

Bakunin disse que, se fosse dado poder absoluto ao mais ardente dos revolucionários, em um ano ele se tornaria pior do que o próprio Czar. O Palmeiras alcançou o posto de time mais poderoso e mais rico e se tornou mais soberbo do que o seu rival.

Tirando a Libertadores de 1999, o Campeonato Paulista de 93 é sem dúvidas nosso título mais importante. É o mais emocionante. Não há gol mais bonito do que o gol de pênalti de Evair naquela final. Quando foi que virou “paulistinha”? A frase de Paulo Nunes em 99 não passou de algo momentâneo. Uma brincadeira. Quem deu direito ao torcedor alviverde de achar que um título estadual não vale nada?

Claro que, com o elenco que tem, o Palmeiras tem que focar nos campeonatos maiores, mas título é título.

 

O meu desgosto com o Palmeiras, são as atitudes da diretoria e de quem gere o clube. É deixar a Crefisa tomar conta do clube e se sentirem mais importante do que realmente são. É sair gastando uma fortuna com inúmeros jogadores que sabe se lá como se tornaram jogadores, ao invés de fazerem um planejamento concreto, verem as posições que realmente tem carência e contratarem aqueles que de fato vão corresponder as expectativas. É decidirem que devem montar um time feminino, só por ser uma exigência da Conmembol e não ficarem de fora da Libertadores. É serem tão irresponsáveis e leigos quanto a história do clube, que conseguem estragar a festa do título ao convidarem um miliciano fascista para participar.

E se não bastasse isso tudo, chegarem ao ponto de discriminarem uma torcedora com deficiência e coagirem ela e sua mãe.

É Palmeiras meu Palmeiras…eu amo você e sua história. Mas que desgosto é ver o que fazem contigo. É maravilhoso ter um grande treinador como Felipão, ter grandes jogadores no elenco e ter a segurança de que ao menos não vamos cair para a segunda divisão uma nova vez. Mas é tortuoso ver como os senhores que “mandam” no clube, cospem e pisam no escudo e na história do clube sem o menor pudor.

 

 

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